O avanço das tecnologias utilizadas na fertilização in vitro (FIV) ampliou as possibilidades de avaliação e seleção embrionária.
Entretanto, uma questão permanece importante: realizar o teste genético pré-implantacional para aneuploidias (PGT-A) aumenta as chances de nascimento de um bebê?
Dois ensaios clínicos randomizados, publicados em 2021 e 2026, contribuem para essa discussão e reforçam a importância de decisões individualizadas, fundamentadas em evidências científicas.
O que é o PGT-A e qual sua finalidade?
O PGT-A é um teste utilizado para identificar alterações no número de cromossomos dos embriões produzidos por fertilização in vitro.
A análise é realizada a partir de células retiradas do embrião, geralmente na fase de blastocisto, permitindo identificar embriões classificados como euploides, ou seja, com número cromossômico considerado normal.
Embora essa tecnologia possa auxiliar na seleção embrionária, identificar alterações cromossômicas não significa, necessariamente, aumentar a taxa cumulativa de nascidos vivos em todos os grupos de pacientes.
O que mostrou o estudo publicado no New England Journal of Medicine?
Em 2021, Yan e colaboradores publicaram um ensaio clínico randomizado envolvendo 1.212 mulheres, entre 20 e 37 anos, com pelo menos três blastocistos de boa qualidade. As participantes foram divididas entre fertilização in vitro convencional e tratamento com PGT-A.
A taxa cumulativa de nascidos vivos, considerando até três transferências embrionárias em um ano, foi de 77,2% no grupo com PGT-A e 81,8% no grupo sem o teste.
Os pesquisadores concluíram que, nessa população de bom prognóstico, a FIV convencional apresentou resultados não inferiores aos obtidos com PGT-A.
O que acrescentou o estudo brasileiro de 2026?
Publicado na revista Clinics, um ensaio clínico randomizado conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo avaliou 206 pacientes de bom prognóstico, distribuídas em dois grupos de 103 participantes.
O estudo comparou a transferência eletiva de um único embrião selecionado por critérios morfológicos com a transferência de um embrião selecionado após análise genética por sequenciamento de nova geração (NGS).
As taxas de gravidez clínica foram de 76,7% no grupo sem PGT-A e 79,6% no grupo com PGT-A, sem diferença estatisticamente significativa. Também não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas nas taxas de nascidos vivos, que foram de 59,2% e 64,1%, respectivamente, nem nas taxas de perdas gestacionais.
Os resultados sugerem que, para pacientes com características semelhantes às estudadas, acrescentar a análise genética não proporcionou melhora estatisticamente demonstrada nos principais desfechos clínicos avaliados.
Isso significa que o PGT-A não tem indicação?
Não. Os estudos não demonstram que o PGT-A seja desnecessário em todas as circunstâncias.
É importante considerar que ambos avaliaram populações selecionadas, com bom prognóstico reprodutivo. Seus resultados não devem ser automaticamente aplicados a pacientes de outras faixas etárias ou com características clínicas diferentes.
Além disso, a taxa de sucesso por transferência embrionária e a taxa cumulativa de nascidos vivos são medidas distintas: uma tecnologia pode contribuir para determinadas etapas da seleção embrionária sem necessariamente aumentar a probabilidade global de nascimento por ciclo de tratamento.
O que essas evidências representam na prática?
A principal contribuição desses estudos é reforçar que a incorporação de tecnologias à reprodução assistida deve considerar seus benefícios clínicos demonstrados, suas limitações e as características individuais de cada paciente: idade, histórico reprodutivo, quantidade e qualidade dos embriões disponíveis e objetivos do tratamento são elementos importantes nessa avaliação.
A medicina reprodutiva baseada em evidências não consiste em utilizar todos os recursos disponíveis indiscriminadamente, mas em compreender quando cada tecnologia pode contribuir para uma decisão clínica mais adequada.
Se você está planejando uma fertilização in vitro ou tem dúvidas sobre a indicação do PGT-A, agende uma consulta para uma avaliação individualizada.
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Dra. Larissa Matsumoto | CRM-SP 134.981
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Referências científicas
YAN, J. et al. Live Birth with or without Preimplantation Genetic Testing for Aneuploidy. New England Journal of Medicine, v. 385, p. 2047–2058, 2021. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMoa2103613
PEREGRINO, P. F. M. et al. Elective single embryo transfer in in vitro fertilization cycles with or without preimplantation genetic testing using next-generation sequencing: A randomized clinical trial. Clinics, v. 81, artigo 100870, 2026. DOI: https://doi.org/10.1016/j.clinsp.2026.100870