Investigação da infertilidade: quando começar e quais exames fazer?
Nova atualização da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva reforça a importância da avaliação individualizada e questiona a necessidade de exames solicitados rotineiramente.
Quando uma gravidez não acontece no tempo esperado, é natural surgir a dúvida: quais exames são necessários para descobrir a causa?
Em 2026, a American Society for Reproductive Medicine (ASRM) publicou uma atualização de suas recomendações para a investigação da infertilidade feminina, reforçando que uma avaliação eficiente deve ser sistemática, individualizada e baseada em evidências científicas.
O documento destaca que investigar mais nem sempre significa investigar melhor.
Quando iniciar a investigação?
Para casais heterossexuais com relações regulares, sem contracepção e sem fatores conhecidos de infertilidade, a ASRM recomenda iniciar a avaliação:
- Antes dos 35 anos: após 12 meses de tentativas.
- A partir dos 35 anos: após 6 meses.
- Acima dos 40 anos: uma avaliação mais imediata pode ser necessária.
Esses prazos não devem ser utilizados para adiar a investigação quando existem condições associadas à infertilidade, como suspeita de endometriose, alterações menstruais importantes ou doenças que possam comprometer a função reprodutiva.
Reserva ovariana: o AMH não responde a todas as perguntas
Um dos pontos relevantes da atualização envolve a interpretação dos exames de reserva ovariana.
O hormônio antimülleriano (AMH) e a contagem de folículos antrais fornecem informações importantes sobre a reserva ovariana, especialmente no planejamento de tratamentos de reprodução assistida.
Entretanto, esses exames não determinam isoladamente a capacidade de engravidar naturalmente.
Uma metanálise de 11 estudos, envolvendo 4.388 mulheres e citada pela diretriz, identificou baixo desempenho do AMH na previsão de gravidez espontânea, com área sob a curva (AUC) de 0,59.
Isso acontece, entre outros fatores, porque o AMH está relacionado principalmente à quantidade de óvulos, e não à sua qualidade. A idade feminina permanece como um dos fatores mais importantes na avaliação da fertilidade.
Ciclo menstrual regular precisa de confirmação da ovulação?
Nem sempre.
Segundo a ASRM, mulheres sem sinais de excesso de andrógenos, com ciclos menstruais regulares entre 25 e 35 dias, geralmente não precisam realizar exames adicionais apenas para confirmar a ovulação.
Quando existem irregularidades, a investigação deve procurar suas possíveis causas.
Essa recomendação ajuda a evitar exames desnecessários e direciona a avaliação para situações em que os resultados podem modificar a conduta clínica.
Quais exames não devem ser solicitados indiscriminadamente?
A atualização também reforça que determinados exames não devem integrar automaticamente a investigação inicial da infertilidade.
Entre eles estão a biópsia endometrial, testes imunológicos, investigação de trombofilias, dosagem de prolactina e TSH sem indicação clínica específica, além da laparoscopia de rotina.
Isso não significa que esses exames não tenham utilidade. Eles podem ser importantes em situações selecionadas, conforme sintomas, histórico médico e suspeitas diagnósticas.
A investigação deve considerar os dois parceiros
Quando existe um parceiro masculino contribuindo para a gravidez, a avaliação deve ocorrer paralelamente.
O documento destaca que fatores masculinos podem contribuir para até 40% dos casos de infertilidade, reforçando a importância de incluir a história clínica e a análise seminal desde o início da investigação, quando aplicável.
O que essa atualização representa na prática?
A principal mensagem da ASRM é que a investigação da infertilidade precisa considerar idade, histórico reprodutivo, função ovulatória, reserva ovariana, condições uterinas e tubárias, além dos fatores masculinos, quando presentes.
O objetivo não é acumular resultados laboratoriais, mas compreender quais informações são relevantes para cada pessoa.
A medicina reprodutiva baseada em evidências não busca solicitar mais exames. Busca fazer as perguntas certas e utilizar os métodos adequados para respondê-las.
Se você está tentando engravidar e tem dúvidas sobre quando ou como iniciar uma investigação, agende uma consulta para uma avaliação individualizada.
Acompanhe também meu LinkedIn, onde compartilho atualizações científicas, análises de estudos e discussões sobre fertilidade e saúde reprodutiva.
Dra. Larissa Matsumoto | CRM-SP 134.981
-
Referência Científica:
PRACTICE COMMITTEE OF THE AMERICAN SOCIETY FOR REPRODUCTIVE MEDICINE. Fertility evaluation of infertile women: a committee opinion. Fertility and Sterility, 2026. Publicação antecipada.