Você está tentando engravidar há um ano, mas a gravidez ainda não aconteceu. Depois da investigação médica, surge uma dúvida: vale a pena realizar algumas tentativas de inseminação intrauterina ou é melhor começar diretamente pela fertilização in vitro (FIV)?
Essa decisão é especialmente relevante quando o casal recebe o diagnóstico de infertilidade sem causa aparente, situação em que a investigação inicial não identifica uma explicação para a dificuldade de engravidar.
Um ensaio clínico randomizado publicado em outubro de 2026 no New England Journal of Medicine comparou essas duas estratégias e trouxe resultados importantes para a individualização do tratamento.
Inseminação intrauterina e fertilização in vitro: qual é a diferença?
Na inseminação intrauterina (IIU), uma amostra de sêmen preparada em laboratório é introduzida no útero durante o período próximo à ovulação. A fecundação ocorre dentro do organismo, geralmente nas tubas uterinas.
O procedimento pode ser associado à estimulação ovariana, como ocorreu no estudo.
Já na fertilização in vitro, os óvulos são coletados e fertilizados em laboratório. Os embriões resultantes são cultivados e posteriormente transferidos para o útero.
São estratégias diferentes em complexidade, custos, procedimentos envolvidos e possibilidades de acompanhamento do desenvolvimento embrionário.
O que o estudo de 2026 investigou?
Conduzido por Prentice e colaboradores, o ensaio clínico multicêntrico randomizou 737 casais com infertilidade sem causa aparente.
Os participantes foram distribuídos entre duas estratégias iniciais:
Até quatro ciclos de inseminação intrauterina com estimulação ovariana.
Um ciclo completo de fertilização in vitro, incluindo as transferências dos embriões obtidos naquele ciclo.
Na primeira etapa, os pesquisadores avaliaram os resultados associados aos tratamentos iniciados durante os primeiros sete meses após a randomização.
A análise principal incluiu 585 casais, após exclusões previstas no protocolo relacionadas ao período de restrições da pandemia de Covid-19.
Qual tratamento apresentou maior taxa de nascidos vivos?
Na primeira etapa, a taxa cumulativa de nascidos vivos foi de 31% entre os casais designados para inseminação intrauterina e 55% entre aqueles designados para FIV.
A diferença ajustada foi de 24 pontos percentuais a favor da FIV.
Isso significa que, na população estudada e dentro da estratégia inicial de tratamento, a FIV apresentou maior probabilidade de resultar no nascimento de um bebê.
É importante observar que o estudo avaliou nascidos vivos, e não apenas testes positivos de gravidez. Esse é um desfecho especialmente relevante na avaliação da efetividade dos tratamentos reprodutivos.
E quando os casais continuaram o tratamento?
O estudo também acompanhou uma segunda etapa.
Após sete meses, os casais que ainda não haviam alcançado uma gestação em evolução ou um nascimento puderam seguir para novos tratamentos.
Aqueles inicialmente designados para inseminação poderiam realizar até dois ciclos de FIV. Os que começaram pela FIV poderiam realizar mais um ciclo.
Considerando os tratamentos iniciados ao longo de até 20 meses, as taxas cumulativas de nascidos vivos foram de 70% no grupo que começou pela inseminação e 71% no grupo que começou pela FIV.
Esses resultados mostram que a diferença observada na primeira etapa não permaneceu da mesma magnitude após a possibilidade de tratamentos adicionais.
Portanto, é essencial distinguir duas perguntas: qual estratégia oferece maior chance de nascimento na etapa inicial e quais são os resultados após uma sequência mais prolongada de tratamentos?
O que o estudo mostra sobre o tempo até o nascimento?
A análise do tempo até o ciclo de tratamento que resultou em nascimento mostrou uma vantagem inicial para a FIV.
No gráfico publicado pelos pesquisadores, a curva correspondente à FIV cresce mais rapidamente nos primeiros meses. Com o avanço do acompanhamento e a realização de tratamentos adicionais, as curvas se aproximam.
Esse aspecto merece atenção porque o tempo é um componente importante do planejamento reprodutivo, especialmente quando existem fatores relacionados à idade ou ao histórico de infertilidade.
Entretanto, o estudo não demonstra que todas as pacientes devam iniciar diretamente pela FIV.
E os riscos dos tratamentos?
A avaliação também precisa considerar a segurança.
No estudo, eventos adversos graves foram registrados em seis casais do grupo inicialmente designado para inseminação e em 14 casais do grupo inicialmente designado para FIV.
A maioria desses eventos esteve relacionada à coleta de óvulos ou à hiperestimulação ovariana.
Esses dados reforçam que a escolha terapêutica deve considerar não apenas as taxas de sucesso, mas também os procedimentos envolvidos e seus possíveis riscos.
Afinal, é melhor começar pela inseminação ou pela FIV?
Os resultados oferecem informações importantes para a decisão clínica, mas não estabelecem uma resposta única para todos os casais.
A idade feminina, o tempo de infertilidade, a reserva ovariana, os resultados da investigação reprodutiva, os tratamentos anteriores e as preferências do casal devem ser considerados.
Além disso, o estudo investigou especificamente casais com infertilidade sem causa aparente. Seus resultados não podem ser automaticamente aplicados a situações com alterações tubárias, fatores masculinos importantes ou outras condições que modifiquem a indicação do tratamento.
A principal contribuição dessa pesquisa é mostrar que a escolha entre inseminação e FIV envolve mais do que comparar procedimentos isolados.
É necessário considerar a estratégia completa, o tempo disponível, as probabilidades de sucesso e as particularidades de cada paciente.
Se você está tentando engravidar e tem dúvidas sobre quando iniciar uma investigação ou qual tratamento pode ser indicado, agende uma consulta para uma avaliação individualizada.
Dra. Larissa Matsumoto | CRM-SP 134.981
Referência científica:
PRENTICE, L. R. et al. In Vitro Fertilization or Intrauterine Insemination in Unexplained Infertility. New England Journal of Medicine, publicação online em 27 de outubro de 2026.